Dying for Sex - Análise Psicológica

    A série Dying for Sex é de uma riqueza simbólica e emocional imensa. É uma narrativa que nos coloca frente aos dois grandes tabus da nossa cultura: a sexualidade e a morte. Os dois temas preferidos da psicanálise - Eros e Thanatos - A pulsão de vida e a pulsão de morte.

    A série mistura humor, dor, emoção e amizade, trazendo à tona os temas do desejo, do luto, do corpo, em essência, do feminino.

    A história

    A protagonista, Molly, descobre que está na fase terminal de um cancro. O enredo começa com Molly numa sessão de terapia de casal com o marido, onde já vemos o peso de uma vida marcada pela desconexão: desconexão do corpo, do desejo, da intimidade e da sua própria voz.

    Ao perceber que o tempo é curto, Molly toma uma decisão radical: separar-se do marido e partir em busca da sua sexualidade. Ela nunca tinha tido um orgasmo com um homem, vivia uma sexualidade frustrada, carregada de pena e silêncio. Agora, a sua última demanda é reencontrar o desejo perdido.

    O feminino ferido e a máscara da boazinha

    Molly é uma mulher sem voz, sem desejo, sem necessidades nem limites. É uma mulher que não consegue verbalizar ao marido o que pensa ou o que quer.Uma mulher que nunca teve um orgasmo com um homem.

    À medida que a série avança, vamos descobrindo o pano de fundo da sua história: uma infância marcada por um abuso sexual aos sete anos e pela relação com aquilo a que chamamos, em psicologia, uma “mãe frágil” — uma mãe que, em vez de cuidar da filha, por ser emocionalmente instável, acaba por ser cuidada por ela.

    Esta mãe vive dominada pela culpa e, por não saber lidar com ela, projeta-a na filha, que passa a carregar não só a sua própria culpa, mas também a culpa da mãe.Esse peso faz com que Molly perca o acesso à sua zanga e aos seus limites, desenvolvendo assim a máscara da “boazinha”. Perante uma mãe frágil e um pai ausente, Molly não consegue sair da relação simbiótica, nem assumir o seu próprio Eros — a força vital que gera mais vida dentro da vida.

    A zanga reprimida impede-a de sentir os seus limites, reprime o seu desejo, apaga a sua voz, o seu poder pessoal. Desconecta-a de si mesma, do corpo e do prazer. É uma mulher que se adapta, que se molda às necessidades e desejos dos outros, perdendo-se de si mesma no processo. 


    Sexualidade como caminho de re-conexão

    Porque vive uma vida sexualmente frustrada com o marido, Molly decide separar-se. Quer explorar a sua sexualidade e reencontrar-se. Entrega-se então a uma jornada de descoberta — uma demanda de exploração do desejo e dos seus próprios limites.

    À medida que a série avança, e que Molly vai expressando e experimentando o seu desejo, começa a recuperar a sua voz. Passa a ser capaz de dizer o que quer, sobretudo aos homens e às figuras de autoridade. Ao ser capaz de dar nome e palavra ao seu desejo, reconecta-se consigo mesma — com o seu mundo interior, com o seu corpo, com o seu feminino.

    O fascinante na série é observar como, através da sexualidade, Molly encontra um caminho simbólico de cura e reconexão. Ao dar voz ao desejo, ao atrever-se a sentir e a explorar, ela começa a recuperar aquilo que lhe foi roubado: a sua voz, o seu corpo e o seu feminino. A sexualidade, neste contexto, torna-se um rito de reconciliação — com o corpo, com a sua história, com o seu feminino. Uma das frases mais marcantes da série é quando, já no fim, Molly afirma:

    “O meu corpo fez um bom trabalho.”

    É um momento de reconciliação profunda — depois de anos de luta, dor e desconexão, ela reconhece e honra o corpo como aliado.

    O Luto como Processo de Crescimento Emocional e Psicológico

    A série mostra-nos claramente o entrelaçamento que existe entre a vida e a morte. Freud ensinou-nos, através do seu trabalho, que é a capacidade de elaborar as perdas que nos permite investir novamente em novos objetos e vínculos e, com isso, reconstruir um novo Eu.

    Afinal, o que é a vida senão uma sucessão de lutos, de ciclos de vida, morte e renascimento? É porque deixamos ir o que já não nos serve que criamos espaço para que o novo possa nascer.

    A aceitação da finitude da vida é vista por Freud como uma forma de levar a vida mais a sério e torná-la mais suportável. É porque sabemos que temos um prazo que nos permitimos seguir com o quotidiano, sonhar e investir em novos projetos.

    A amizade feminina

    Mas a série não é apenas sobre Molly. A relação com Niki, a sua melhor amiga, é o outro eixo central da história.Numa sociedade que promove a competição e a rivalidade entre mulheres, a série revela o poder da amizade feminina — um dos pontos centrais na cura do feminino. A reconciliação com o feminino faz-se, muitas vezes, através da cura da relação com a mãe e com as outras mulheres que atravessam o nosso caminho.

    No início, Niki é apresentada como uma mulher desorganizada, infantil, perdida em si mesma.A relação entre as duas parece quase simbiótica, marcada por uma certa codependência emocional. Mas, à medida que caminham juntas pela doença e pela morte, ambas se transformam. Ao acompanhar Molly na sua travessia, Niki aprende a amar para além do próprio narcisismo — e é esse amor maduro que a faz crescer. Bem como o encontro com morte e o seu próprio luto.

    No final, Niki emerge como uma mulher mais inteira, capaz de sustentar a própria vida, organizar-se e gerar novos projetos. A morte da amiga simboliza, em si mesma, um renascimento.

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