O Que Quer Uma Mulher?
Uma reflexão psicanalítica sobre o 8 de Março e a construção do feminino
No dia 8 de Março celebramos o Dia Internacional das Mulheres, que assinala a conquista da luta histórica das mulheres por igualdade de direitos, participação social, melhores condições de trabalho e contra a violência de género. É uma celebração de conquistas passadas, mas também um convite à reflexão sobre o que ainda é preciso fazer e transformar.
A análise da subjetividade feminina mostra-nos que, acima de tudo, o 8 de Março é (e deve ser) um manifesto pela descolonização do nosso ser, tanto nas mulheres como nos homens.
Do Biológico ao tornar-se Mulher
Muito antes de o conceito de género inundar a sociologia moderna, a psicanálise de Freud já nos dava uma pista fundamental: o psiquismo não tem sexo. Nascemos como organismos vivos, massas de pulsão e potencialidade. Como o próprio Freud observou ao longo de três décadas de estudo, a "mulher" não é um destino biológico selado no nascimento; ela torna-se mulher através de um processo complexo e, muitas vezes, doloroso, de inserção na cultura e no social.
A repressão da agressividade e do desejo das mulheres é um padrão social que as tem enclausurado durante séculos por detrás dos papéis de cuidadoras e dóceis fadas do lar. É sabido que, noutras espécies animais, as fêmeas apresentam comportamentos mais agressivos e ativos do que os machos, tal como existem espécies em que é o macho quem fica responsável pelo cuidado com a prole. Isto mostra-nos que o biológico não define, por si só, o papel e a função que representamos socialmente.
Ser mulher, portanto, não é um estado natural e completo em si mesmo, mas uma construção atravessada pelas diretrizes de cada época, sociedade e cultura. E é aqui que reside a nossa primeira grande luta: o direito de nos construirmos fora dos moldes que nos foram impostos.
A escuta do desejo silenciado
No final do século XIX, ao estudar as neuroses, Freud deparou-se com algo que ainda hoje ressoa: a profunda insatisfação de muitas mulheres com as suas vidas enquanto “apenas” esposas, mães e donas de casa. Aquelas mulheres não estavam doentes; estavam asfixiadas nas suas vidas monótonas. O quotidiano repetitivo e o papel de dona do lar, eram gaiolas para seres que são, na sua essência, erógenos e desejantes.
Hoje, em consultório, escuto o conflito que muitas mulheres sentem após se tornarem mães, ao aperceberem-se de que a maternidade não lhes traz assim tanta satisfação quanto imaginavam e de que desejam profundamente voltar a encontrar-se para além do papel de mãe.
Escuto também mulheres que, após a maternidade, deixam de reconhecer o desejo que antes tinham pela carreira. Em ambos os casos, o reconhecimento dos seus próprios desejos traz conflitos profundos, por entrarem em choque com as expectativas sociais.
É curioso que, hoje em dia, assistamos a uma onda de mulheres que se sentem insatisfeitas com as vidas exigentes que levam, tentando equilibrar carreira, maternidade e vida doméstica, e que idealizam os “idílicos” anos em que as mulheres ficavam em casa e os homens eram os provedores, culpando os movimentos feministas pelas suas dores e frustrações.
Mas o que muitas ainda não perceberam é que as feministas não são as suas rivais; a verdadeira rival é a domesticação do seu desejo. A luta feminista é — e deve ser sempre — a luta pela liberdade do desejo e subjectividade de cada pessoa, pela liberdade do Ser.
A história da humanidade tem sido, em grande parte, a história da domesticação do desejo feminino — da mulher (do Ser) enquanto ser desejante e erógeno. Por todo o mundo, de formas brutais ou subtis, tentou-se erradicar a vontade própria da mulher. Vemo-lo na imposição da burca, na barbárie da mutilação genital, mas também o sentimos aqui, no Ocidente, através da colonização das nossas mentes pela culpa e pela busca implacável de uma perfeição inexistente.
A colonização do Corpo e da Mente
Ainda precisamos do 8 de Março porque as mulheres continuam a ser vistas, em muitos contextos, como o lugar do pecado ou como objetos de posse. A verdade é que ainda não somos totalmente donas dos nossos corpos nem dos nossos desejos. Fomos ensinadas a cuidar, a servir e a agradar, enquanto o nosso próprio prazer e vontade eram relegados para o campo do mistério ou da vergonha.
A célebre pergunta que Freud fez a Marie Bonaparte — “O que quer uma mulher?” — permanece sem uma resposta única, e talvez seja esse o maior trunfo da nossa existência. O “mistério” que Freud não conseguiu decifrar é a prova de que a nossa vontade é indomável e singular.
Celebramos este dia para trazer à consciência que o caminho ainda é longo. Precisamos de nos libertar das amarras da “mulher perfeita” e recuperar o direito de sermos seres desejantes, imperfeitos e autónomos.
O 8 de Março não é sobre flores; é sobre a posse da nossa própria narrativa.
É sobre responder à pergunta “O que quer uma mulher?” com a única voz que importa: a nossa.