Wednesday e a Relação Mãe-Filha na construção da Identidade Feminina
Na segunda temporada da série Wednesday, disponível na Netflix e realizada por Tim Burton, a protagonista regressa à Nevermore Academy como uma figura que oscila entre heroína e incógnita. Novas forças sombrias emergem, antigos mistérios não resolvidos voltam a assombrá-la, e a sua família — os Addams — assume um papel ainda mais central. Entre visões perturbadoras, poderes em transformação e alianças que se desfazem, Wednesday vê-se obrigada a enfrentar o seu passado, o presente e as expectativas que os outros projectam sobre ela.
Se na primeira temporada a série nos mostra o processo de individuação de uma adolescente que sai de casa dos pais para explorar a sua autonomia e descobrir o seu lugar no mundo, a segunda temporada aprofunda a importância da relação mãe-filha e o reencontro com o feminino nesse percurso.
A adolescência é o período, em que os filhos e as filhas, começam a reconsiderar as referências de identidade, no caso da jovem-mulher, irá fazer o processo da sua identidade feminina em relação à figura materna, que até então a orientava.
Maureen Murdock, no seu livro A Jornada da Heroína, mostra-nos que — ao contrário do processo de individuação masculino, que se faz para fora — o processo de individuação feminino faz-se para dentro. É uma conquista interior e não exterior. Nesta segunda temporada, entre segredos ancestrais, visões perturbadoras e dilemas morais, Wednesday encontra-se diante daquilo que mais teme: sentir.
Por trás do humor negro e da estética gótica, a série explora a jornada de individuação de uma adolescente que precisa aprender a integrar o seu lado sombra, reconhecer as suas vulnerabilidades e confrontar as complexidades da relação com a mãe, Morticia.
A separação psicoemocional da filha em relação à mãe é um processo longo e fundamental para que a mulher possa amadurecer e florescer. Se, por um lado, a mãe é o primeiro espelho de identificação, o primeiro Outro com quem a menina se identifica e sente “eu quero ser como ela”, por outro lado, chega um momento em que é necessária a separação para que ela possa compreender quem é para além da mãe.
O Poder da Mãe
Para que o processo de autonomia possa acontecer, as mães têm de abdicar do poder que exercem sobre as filhas — e, se o processo de separação é doloroso para as filhas, para as mães também o é.
O processo de ter um filho acarreta um desejo que, em muitos casos, se inicia muito antes da gravidez acontecer. A maternidade é um lugar de grande idealização, fantasia e projeção — e é natural que assim seja; caso contrário, muitas de nós não se atrevería a atravessar esse portal que tanto nos põe em contacto com a morte. Curiosamente, o tema da morte, pela própria estética característica da Família Addams, está sempre muito presente na série.
As mães têm sentimentos tão onipotentes em relação aos seus filhos e filhas que frequentemente alimentam a fantasia de que sabem tudo sobre eles — o que sentem, pensam e gostam. É comum ouvir pacientes minhas dizerem: “parecia que ela (a mãe) sabia tudo, via tudo, controlava tudo… parecia até que lia os meus pensamentos”. Há mães que, ultrapassando todos os limites, lêem diários ou cartas pessoais das filhas. Estas mães, incapazes de lidar com as suas próprias angústias e anseios, acabam, sem saber, por dificultar profundamente o processo de autonomização das filhas.
É precisamente porque precisam de um espaço interno só seu, e muitas vezes para fugir da onipotência materna, que as crianças passam por fases em que mentem: para provarem a si mesmas que as mães (e os pais) não estão dentro da sua cabeça. E ainda bem que o fazem — caso contrário, estaríamos a falar de um quadro psicótico.
Para que uma mulher se possa constituir como um ser autónomo, com desejo próprio (autêntica), ela tem de se separar da mãe. Este é um processo doloroso, que, quando não é facilitado pela mãe e pelo ambiente (função do pai), exige muita força por parte da jovem mulher. Há as que usam a rebeldia e a zanga para o fazer, as que fogem para longe, e as que se submetem totalmente ao desejo materno, nunca saindo debaixo da sua alçada. Todos estes processos costumam ser acompanhados por muita angústia e culpa.
É interessante ver em Wednesday toda a complexidade da separação mãe-filha nas diferentes dinâmicas que a série apresenta. Seja na relação de Wednesday com Morticia, em que Wednesday procura encontrar o seu espaço interno através de mentiras; seja na relação com a avó materna, Hester Frump, em que ambas desdenham de Morticia — e Wednesday, ao identificar-se com a avó, distancia-se psicologicamente da mãe.
As problemáticas da relação mãe-filha surgem também noutras relações ao longo da série: na relação de Morticia com Hester, marcada por um possível desamparo; na relação da siren Bianca Barclay com a sua mãe frágil e submissa, Gabrielle Barclay, que coloca a filha no lugar de cuidadora; e até na dinâmica dos hydes, na relação entre Tyler e a sua mãe dominadora, Françoise Galpin, onde vemos uma relação profundamente destrutiva, marcada pelo lado devorador do complexo materno. A relação mãe-filha é tema de muitas sessões de terapia, filmes, livros e séries — porque é desta relação que se constitui a identidade de uma mulher.
O bebé humano nasce à mercê da morte, é o ser mais vulnerável e dependente do planeta. Sem alguém que cuide das suas necessidades físicas e emocionais, não sobrevive. Quer gostemos de admitir ou não, esse carimbo de desamparo com que nascemos, e a forma como fomos acolhidas nos primeiros tempos de vida, marca-nos para sempre e dita muito da forma como iremos desenvolver a nossa personalidade.
No caso das mulheres, a construção da feminilidade faz-se, em primeiro lugar, na relação com a mãe: é a mãe quem convida a menina a entrar no mundo do feminino, e a luta entre identificação e separação é um processo que se desenrola com maior ou menor harmonia — conforme cada história.
O feminino e o mundo do sentir
Usando uma linguagem junguiana, podemos dizer que o mundo interior — da subjetividade, das emoções, do sentir — se refere à dimensão do feminino, enquanto a dimensão do fazer, do agir e do pensar nos remete para a dimensão masculina.
Quando uma mulher está desconectada do seu mundo subjetivo, das suas emoções, ela sente-se perdida e desconectada de si mesma. Por isso busca, através de identificações exteriores, máscaras e papéis para representar, na tentativa de se encontrar. Contudo, como vimos no início deste artigo, a jornada do feminino faz-se para dentro, e uma mulher que procura o seu lugar no mundo através do exterior está a comprar o bilhete para, mais cedo ou mais tarde, se sentir perdida de si mesma.
Para que uma mulher se reencontre, ela tem de se conectar com o seu sentir, com o seu mundo interior. A desconexão e a repressão do feminino são transgeracionais. Acontecem porque há dores que não foram elaboradas e porque olhar para dentro dói — é desconfortável. Como há encontro com a vulnerabilidade e o desamparo, muitas mulheres preferem permanecer voltadas para o exterior.
A desconexão com o feminino já vem de muitas gerações — gerações de mulheres que tiveram de calar as suas vozes, esconder os seus choros e as suas zangas. O resultado deste processo é a perpetuação, de geração em geração, da desconexão com o sentir.
Há uma frase que me tocou profundamente, dita pela avó materna da Wednesday:
A avó diz:
“Sabes o que é que eu digo sempre em relação aos sentimentos?”
E a Wednesday responde:
“Enterrá-los bem fundo e deixar que nos corroam lentamente.”
Quando não estamos em contacto com os nossos afetos, quando não elaboramos as nossas perdas, reprimimos o sentir e criamos estruturas rígidas — como nos mostra a personagem Wednesday — para não entrar em contacto com aquilo a que não conseguimos dar nome nem elaborar.
Para Wednesday, o seu processo de individuação passa por conectar-se com o seu sentir; já o da sua amiga e companheira de quarto, Enid Sinclair, passa por aprender a sustentar as suas emoções, que têm tendência a transbordar (caso ela não consiga conter as suas emoções, transforma-se em lobisomem antes do tempo). O facto de trocarem de corpo por 24 horas mostra que são sombra uma da outra, e que o processo de individuação de ambas passa por integrarem aspetos da psique que cada uma representa para a outra.
Esta segunda temporada da série mostra-nos as complexidades das relações mãe-filha e a sua implicação na construção da identidade da jovem mulher, assim como o papel dos afetos — tipicamente tão exacerbados na adolescência — e a importância de desenvolver uma relação saudável com o mundo interior e com o sentir.