Ser mulher é estar exausta o tempo todo?
Vivemos o tempo da epidemia das mulheres cansadas, ou será que foi sempre assim?
Escuto em consultório, frequentemente, histórias de mulheres que se sentem assoberbadas entre os diferentes papéis que representam — a mãe, a mulher, a profissional, a dona de casa, a filha, a amiga, e por aí fora. São verdadeiras equilibristas na arte de tentar manter todos os pratos no ar, com a agravante muito atual do auto-cuidado: acordar como os “campeões” às 5h da manhã, beber o sumo detox, ir ao ginásio, meditar e, com sorte, ainda escrever no diário… Se não for de manhã, então que seja ao final do dia.
Tudo isto acompanhado por um bom punhado de comparação nas redes sociais, um copo bem cheio de autoexigência e uma pitada de sentimento de insuficiência.
Temos aqui a receita perfeita para um bom “caldo entornado”.
Com quem te andas a comparar?
Outro dia, numa consulta, uma paciente partilhava comigo a sua angústia de não se sentir suficiente. Ela é mulher, mãe, dona de casa, vive uma relação e está a trilhar os seus primeiros passos no mundo do empreendedorismo. Partilhava comigo as suas frustrações quanto ao facto de sentir que não está a fazer o suficiente. Acredita que devia acordar mais cedo, fazer mais, para ter mais resultados e mais sucesso…
Quando fomos explorar de onde vinham estas expectativas e exigências, percebemos que ela estava a comparar-se com homens empreendedores de sucesso e com jovens mulheres que não são mães.
Estas comparações são fantasias irrealistas e extremamente cruéis, que muitas mulheres impõem a si mesmas desnecessariamente.
Quando olhamos para as histórias de homens empreendedores de sucesso, observamos que eles só atingiram esse sucesso porque — caso tivessem mulher e filhos — tinham a mulher em casa a garantir todo o funcionamento da vida familiar e da logística dos filhos. Mas quando uma mulher casada, com filhos, decide empreender, muitas vezes ambiciona obter os mesmos resultados, embora não siga o mesmo modelo. E esta é a grande falácia: ao contrário dos homens, regra geral a mulher não tem em casa quem assegure a gestão do “projeto família” para que ela se possa dedicar cem por cento à sua carreira e profissão, como acontece com a maior parte dos homens.
As mulheres andam exaustas e assoberbadas porque seguem um modelo que não funciona para elas. Claro que há exceções, mas, regra geral, o que se passa é que as mulheres estão sozinhas a tentar equilibrar todos estes pratos — com a agravante atual de quererem garantir que os filhos se sintam acolhidos emocionalmente, vistos e que têm comida saudável em cima da mesa.
Para a mulher atual, garantir apenas comida e teto não é suficiente.
Que caminhos encontramos como saída?
Como resposta a esta exaustão, estão a surgir diversos movimentos ideológicos, estéticos e até políticos. Alguns desses movimentos são as tradwives, as stay-at-home girlfriend, o commerce of self-care, entre outros. Muitos destes movimentos não são ideologias políticas, mas sim marketing e identidades de consumo.
Qual o perigo destes movimentos? Em primeiro lugar, não representam a realidade. Muitas das mulheres que defendem o estilo de vida de dona de casa tranquila, com tempo para cozinhar e fazer trabalhos manuais, têm equipas inteiras a tratar do seu conteúdo digital. Outro perigo é a possibilidade de essas ideologias, quando politizadas, restringirem direitos fundamentais.
A exaustão por um “modelo masculino” é real, mas a solução social e ética não é automaticamente regressar aos papéis tradicionais. É criar alternativas que reduzam a sobrecarga sem sacrificar direitos e autonomia.
Talvez o caminho de solução não esteja nem no retorno aos velhos papéis, nem na tentativa de caber em modelos contemporâneos que continuam a não nos servir. O que exaure tantas mulheres não é apenas o excesso de tarefas, mas sobretudo viver dentro de sistemas que não foram criados a partir da sua verdade. Passamos a vida a tentar adaptar-nos a estruturas que não nasceram de nós — modelos masculinos, modelos tradicionais, modelos das redes sociais — e esquecemo-nos de que aquilo que realmente transforma é aquilo que criamos de dentro para fora.
A verdadeira mudança começa quando cada mulher se reconecta com a sua subjetividade, com o seu corpo, com o seu desejo e com o seu ritmo. É a partir dessa escuta interior que surgem modos de vida que realmente nos sustentam. Só quando sabemos quem somos é que conseguimos construir sistemas novos — pessoais, familiares, profissionais e até sociais — que nos honram, em vez de nos esgotarem.
Criar novos sistemas não é um gesto abstrato: é profundamente concreto.
É renegociar responsabilidades em casa, em vez de carregar o mundo sozinha.
É permitir-se pedir ajuda, e não viver aprisionada pelo mito da autossuficiência.
É criar rotinas que respeitem o corpo feminino e o seu tempo cíclico, em vez de tentar viver num relógio linear que não nos representa.
É cultivar redes de apoio entre mulheres, porque ninguém floresce na solidão.
É praticar um autocuidado que não é performativo, mas regulador: respirar, abrandar, sentir.
É redefinir o que é “suficiente”, libertando-se da exigência interminável de ser mais, fazer mais, provar mais.
E, acima de tudo, é compreender que a transformação verdadeira acontece quando reconhecemos os nossos padrões internos, de comparação, de exigência, de auto-sacrifício, e escolhemos algo diferente.
O sistema externo muda quando o sistema interno muda.
O coletivo transforma-se quando cada mulher começa a viver a partir da sua verdade íntima e não de expectativas herdadas.
Somos seres orgânicos, vivos, em constante construção e desconstrução.
Se queremos um mundo menos exausto e mais humano, precisamos criar formas de viver que nasçam da nossa própria alma. O todo é feito das suas partes, e cada mulher é uma parte essencial dessa mudança.
Quando cada uma de nós assume os seus desejos, honra o seu ritmo e cria o seu próprio sistema, abrimos caminho para um futuro onde existir não seja uma batalha, mas uma expressão autêntica de quem somos.