Élio - Ser único pode parecer Solitário

    Análise Psicológica

    Sinopse

    Elio é uma animação da Disney-Pixar (dirigida por Madeline Sharafian, Domee Shi e Adrian Molina) que conta a história de um rapaz de 11 anos, criativo, sonhador e imaginativo, que vive com a tia e é profundamente fascinado pelo espaço e pelos extraterrestres. Ele acaba por ser transportado para o Comuniverso, uma organização interplanetária que reúne representantes de várias galáxias. Lá, por engano, é identificado como embaixador da Terra, enfrentando crises intergalácticas, laços inesperados e a urgência de descobrir quem realmente é.

    A relação simbiótica — quando dois são um só

    O bebé humano nasce profundamente vulnerável e dependente — talvez o mais dependente de todos os seres. Para sobreviver, precisa não apenas de cuidados, mas do desejo de alguém que o queira vivo.

    É nesse encontro, geralmente com a mãe, que se estabelece uma relação fusional, simbiótica. Num estado inicial, o bebé não se reconhece como separado: ele e a mãe são um só. Na relação simbiótica, a criança aliena-se ao desejo da mãe, ou seja, adapta-se, molda-se e torna-se aquilo que acredita ser esperado dela. Mas crescer e tornar-se indivíduo implica um movimento de separação, para se encontrar a si mesma.

    No filme, esta relação é representada pela ligação da tia com Élio — uma relação marcada por tensões. Com 11 anos e à porta da puberdade, uma fase caracterizada por intensas transformações internas, onde emergem novas angústias, desejos e a necessidade de reorganização psíquica, Élio adapta-se cada vez menos ao desejo da tia e inicia o seu movimento de separação.

    Para que a separação psíquica e emocional possa acontecer, a criança precisa de se voltar para fora, de procurar o mundo para além da família, do conhecido e das expectativas que sobre ela foram projetadas. No filme, esse impulso é representado pelo Comuniverso — um espaço de expansão, de alteridade e de descoberta.

    Quando este processo de separação não acontece e alguém permanece capturado pelo desejo do outro, vemos aquilo que o filme retrata na relação da tia com o clone de Élio: uma versão “perfeita”, ajustada, sem conflito — que, num primeiro momento, encanta, mas que rapidamente revela algo essencial: não é real.

    Uma das perguntas que o filme nos deixa é: quantas vezes desejamos que o outro se adapte ao nosso desejo, em vez de respeitarmos a sua verdade?

    O preço que pagamos por abdicar do nosso próprio desejo é alto — muitas vezes, pode ser a perda da própria alma.

    O Papel do Pai - O Terceiro que Separa e permite Crescer

    Se a mãe representa, numa fase inicial, o mundo inteiro, a função paterna surge como aquilo que introduz diferença, limite e expansão. Mais do que uma figura concreta, trata-se de uma função psíquica: a de sustentar o ambiente, proteger a relação inicial mãe-bebé e, mais tarde, permitir a separação.

    Num primeiro momento, o “pai” cuida da mãe, garantindo que ela pode cuidar. Depois, torna-se o terceiro elemento que rompe a fusão, que mostra à criança que existem outros mundos, outras relações, outras possibilidades de ser.

    Separar-se da mãe não é um gesto simples. É um processo atravessado por angústia, medo e insegurança. Quando a função paterna está presente — interna e externamente — ela acolhe essa travessia, oferecendo estrutura e segurança para explorar o desconhecido.

    Quando falha, a criança pode permanecer presa ao desejo materno, afastando-se de si própria, refugiando-se na fantasia ou numa identidade pouco diferenciada.

    E talvez por isso tantas pessoas, já em adultas, se sentem perdidas, como se nunca tivessem verdadeiramente chegado a si mesmas.

    Individuar-se — entre pertencer e ser

    A puberdade convida a uma nova travessia, rumo a uma maior separação e autonomização, é o convite para a individuação. Um espaço onde o sujeito é chamado a confrontar-se com a pergunta “quem sou eu?”, para além daquilo que esperam de mim.

    No universo masculino, o pai surge como primeira referência de identidade. Mas é também com ele que surge o conflito, identificar-se ou diferenciar-se? Pertencer ou separar-se?

    Em Elio, esta tensão é espelhada na relação entre Lord Grigon e Glordon. Um pai que não compreende o filho e um filho que não corresponde às expectativas do pai.

    Glordon vive o dilema de tantos adolescentes, ser aceite e pertencer, ou ser verdadeiro a si próprio.

    Quando a angústia do conflito é demasiado grande, surgem defesas, carapaças, máscaras, falsos selves, que protegem, mas também afastam da autenticidade.

    É quando o sujeito consegue sustentar o conflito interno e a angústia, que essas defesas começam a ceder. E, nesse momento, algo fundamental pode acontecer, o contacto com a vulnerabilidade, com a verdade, com aquilo que realmente se é.

    Mas esse encontro tem um preço: a solidão.

    Como nos diz a personagem Elio, “Ser único pode parecer solitário.”

    A solidão — entre o desamparo e o encontro consigo mesmo

    Para Winnicott, a capacidade de estar só é um dos maiores indicadores de saúde mental, especialmente a capacidade de estar só na presença do outro.

    Esta sofisticada competência começa a desenvolver-se cedo, no brincar solitário da criança sob o olhar da mãe, e aprofunda-se ao longo do desenvolvimento, especialmente quando a criança reconhece que não ocupa o centro do mundo, que há relações das quais está excluída, lugares que não lhe pertencem.

    Este reconhecimento implica uma queda narcísica, deixar de ser “especial”, representada no filme quando Élio desilude os seres intergalácticos. Paradoxalmente, é essa queda que permite uma vida mais leve, mais real e menos exigente.

    A solidão, neste sentido, não é ausência — é presença. Presença de si.

    Claro que nem toda a solidão é vivida assim. Há uma solidão que doí, pois expõe o desamparo original. E há outra, mais madura, que se aproxima da plenitude, daquilo a que algumas pessoas chamam de solitude.

    Talvez crescer seja, aprender a estar consigo mesmo.

    Ser quem nascemos para Ser

    Elio, através da sua aventura, mostra-nos que não nos encontramos evitando o desconforto, mas sim atravessando-o.

    É no contacto com o desafio, com a angústia, com o conflito, com a solidão, mas também através do brincar, que o verdadeiro self pode emergir, não como uma construção perfeita, mas como uma experiência viva e autêntica de Ser.

    Encontrar-se implica, inevitavelmente, sair do lugar onde sempre fomos reconhecidos. Implica desapontar expectativas, quebrar identificações, abandonar versões de nós que já não servem.

    Ser único é, muitas vezes, não encaixar. Mas é também o único caminho possível para uma vida com alma.

    Porque, no fim, talvez a verdadeira pertença não esteja em ser só aceite pelos outros, mas essencialmente em conseguir, habitar quem somos.

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