Para que o amor dê certo!

    E porque por todo o lado já só vemos corações, hoje quero escrever sobre o amor — este tema tão comum, que traz tanta gente à terapia e, ao mesmo tempo, tão misterioso, que tanto desejamos, mas também tanto tememos.
    Somos constantemente bombardeados por imagens e narrativas de amores românticos, fáceis e mágicos, que na verdade mais prejuízo nos trazem do que benefícios, pois alimentam fantasias de amores irreais e idealizados. A verdade é que amar e ser amado assemelha-se, na maior parte das vezes, a verdadeiras “tragédias gregas”. Ao contrário do que se vende por aí, o amor nasce da necessidade e não do romantismo.

    Mas afinal, o que é o amor e de onde vem o amor?

    O bebé humano é o ser mais vulnerável e desamparado do planeta Terra, sem alguém que queira que ele vingue, que viva, ele não sobrevive. Por isso, no início, não é amor, mas sim necessidade de sobrevivência.
    Para sobreviver, o bebé precisa de alimento, calor, regulação emocional e, acima de tudo, de alguém disponível psicológica e emocionalmente para interagir com ele. Essas necessidades são satisfeitas por um cuidador — a mãe, o pai ou outra pessoa que cumpra essa função — e é dessa experiência de cuidados que nasce uma fantasia estrutural: a fantasia de que existe alguém perfeito, que satisfaz tudo. 

    Para o bebé, o cuidador aparece como um outro ideal: sempre disponível, presente e suficiente. Mas essa experiência nunca foi perfeita. Nunca existiu um cuidador que satisfizesse tudo o tempo todo. O que existe é uma ilusão necessária (uma fantasia) que permite ao psiquismo organizar-se e estruturar-se, para não entrar em contacto com o real desamparo, que é profundamente desestruturante. O crescimento saudável exige que essa ilusão vá sendo lentamente frustrada. É aí que começa a transformação da necessidade em amor.

    Para que o amor dê certo, têm de existir três tipos de desidealização:

    1 – A desidealização do eu: o fim da omnipotência

    À medida que a criança cresce, ela encontra a realidade e os limites. O cuidador frustra, falha, não está sempre disponível, diz não, e isso é essencial. A frustração progressiva introduz o princípio da realidade: o eu não é omnipotente, a criança aprende que mundo não gira à sua volta e que o outro não existe só para satisfazê-la. Se esse processo acontece de forma gradual e sustentada, surge algo precioso: a capacidade de tolerar a falta (a frustração) sem destruir o vínculo (o outro). É da falta que vai surgir o verdadeiro desejo pela vida e pela construção de uma relação real.

    Mas quando essa desidealização falha, o adulto continua a procurar relações onde possa manter a fantasia infantil: “eu sou especial, portanto devo ser plenamente satisfeito”. A relação amorosa deixa de ser um encontro a dois, e passa a ser demanda e exigência. Amar implica suportar descobrir que não somos tudo isso que achamos que somos, e que, ainda assim, somos dignos de amor.

    2 – A desidealização do outro: o fim do objeto mágico

    Na vida adulta, carregamos a nostalgia inconsciente daquilo a que Freud chamou “objeto perdido”, caracterizado pela busca eterna do primeiro objeto de satisfação. Projetamos no parceiro a fantasia de um outro que finalmente vai preencher o que falta. Um outro que entende tudo, responde a tudo e nunca frustra. Mas o outro não é um objeto mágico e omnipotente. Ele é real: um sujeito cheio de falhas, limites, histórias e sombras — tal como o primeiro objeto, o cuidador. O mais curioso desta história é que buscamos algo que, na realidade, nunca existiu, pois foi sempre uma fantasia.

    Este estado de idealização é comum no início das relações: é o estado a que chamamos paixão. Quando a idealização cai, muitas pessoas concluem: “o amor acabou”. Mas, na verdade, é só nessa altura que a tarefa do amor começa. O amor não nasce quando o outro é perfeito e responde a todas as demandas; o amor nasce quando aprendemos a amar e a aceitar o outro com as suas peculiaridades, singularidades e subjetividades. Amar é cuidar do vínculo depois da queda da fantasia.

    3 – A desidealização do amor: o fim do mito romântico

    A cultura vende-nos uma imagem perigosa do amor como harmonia permanente, compatibilidade natural e ausência de conflito. Essa narrativa cria uma armadilha, pois quando surge frustração, diferença, dor ou desilusão, interpretamos isso como sinal de fracasso. Contudo, o amor não é o oposto do conflito: o amor é uma construção, é a capacidade de atravessar o conflito sem abandonar o vínculo. Todas as relações têm fricção. Toda a intimidade vai expor feridas e revelar sombras. O amor não é a eliminação desses aspetos — pelo contrário, o amor é a tarefa de nos transformarmos através do outro.

    A tarefa do amor

    O amor acontece então, quando dois sujeitos autónomos e imperfeitos escolhem permanecer. Ele não é espontâneo nem garantido: é construído e cultivado. Surge quando temos genuína curiosidade sobre o Outro real. É conhecer e deixar-se conhecer. O que sustenta o amor não é ser uno com o outro — ou o que a psicologia chama fusão — mas sim a capacidade de tolerar a solidão e de reparar a separação. Bem como cultivar virtudes e valores como a empatia, a tolerância, a comunicação, a curiosidade, a generosidade, o respeito e a admiração. E talvez amar seja isto: dois seres imperfeitos que, apesar de tudo, continuam a escolher-se, não por ilusão, mas por consciência.

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