A Inteligência Artificial vai substituir a Psicoterapia?

    Esta semana, ao ver um vídeo na internet onde algumas pessoas partilhavam que utilizavam a inteligência artificial como terapia, e outras que tinham inclusive deixado o psicólogo para privilegiar o ChatGPT, dei por mim a refletir sobre o quão redutora, e absurda, é esta ideia. E explico abaixo por que considero impossível a inteligência artificial substituir a psicoterapia.

    O que é a Inteligência Artificial?

    A inteligência artificial é um sistema criado para reconhecer padrões. É, por isso, extraordinariamente eficaz na análise de dados; trabalha com estatísticas, diagnósticos, previsão de resultados e reprodução de estruturas já existentes. Neste domínio, poderá mesmo superar a inteligência humana na otimização de processos, no tratamento de grandes volumes de informação e na automatização de tarefas.

    Contudo, quando entramos no campo da subjetividade e da experiência humana, a inteligência artificial encontra o seu limite, a menos que a nossa intenção, enquanto humanidade, seja deixarmos de ser sujeitos para passarmos a ser máquinas.

    O que nos torna humanos?

    O que nos torna humanos é a capacidade de sentir, simbolizar e atribuir sentido àquilo que experienciamos, sempre em relação com os outros, e sob a consciência de que somos finitos. Ao contrário dos restantes seres vivos, o ser humano não só vive, como sabe que vive. Tem a capacidade de se observar, de refletir sobre si mesmo e sobre a própria experiência e existência, ou seja, tem autoconsciência.É porque é um ser de linguagem, que pode pensar sobre o que sente e simbolizar a sua experiência subjetiva.

    O que verdadeiramente nos constitui é a subjetividade. Não somos apenas organismos que reagem a estímulos, somos seres que atribuem significado ao que nos acontece. A subjetividade é composta por perceções, emoções, memórias, fantasias, medos, desejos, valores e crenças. Parte dela é herdada do contexto cultural e familiar em que nascemos, outra parte é construída ao longo da vida. É esse tecido complexo que forma o nosso mundo interno. Duas pessoas podem viver exatamente o mesmo acontecimento objetivo e experienciá-lo, e dar-lhe um sentido, de forma profundamente distinta. É a subjetividade que nos permite dar forma, narrativa e sentido ao vivido.

    Trabalhar com a subjetividade, como fazemos em psicoterapia, é recusar reduzir o sujeito a sintomas ou diagnósticos. É escutar a pergunta essencial: “Como foi isto para ti?”. É aproximar-se do mistério singular que cada ser humano representa, com todas as suas nuances, complexidades e paradoxos. 

    Na psicoterapia trabalhamos com a unicidade. Já a inteligência artificial, pelo contrário, trabalha com padrões, com regularidades, com aquilo que já existe e pode ser replicado.

    Somos seres sociais

    O bebé nasce sem subjetividade constituída. Um dos papéis fundamentais dos cuidadores primários é precisamente transmitir e sustentar as condições que permitem o seu desenvolvimento. Não nascemos sujeitos psíquicos completos, nascemos organismos biológicos. Tornamo-nos humanos na relação.

    É na interação com o outro que emergimos como sujeitos. Precisamos de cuidado físico, mas também emocional e simbólico. Sem esse cuidado relacional, não sobrevivemos, nem biologicamente, nem psiquicamente.

    Constituímo-nos nas relações, e é também nelas que nos magoamos e sofremos. Por isso, a cura e a verdadeira transformação em psicoterapia acontecem através da relação. A psicoterapia funciona porque é sustentada por uma relação com características específicas e estruturantes. O psicoterapeuta é um profissional treinado para criar um espaço relacional seguro, ético e transformador.

    Uma boa psicoterapia convida o sujeito a questionar-se, a colocar-se em causa, a responsabilizar-se, a amadurecer, a desenvolver recursos internos e, sobretudo, a descobrir-se, a si, aos seus valores e ao seu desejo.

    Esse trabalho não se limita a oferecer respostas confortáveis. Exige confronto, elaboração e profundidade. Algo que uma inteligência artificial, programada para responder a partir de padrões e probabilidades, não pode verdadeiramente realizar.

    Vivemos numa era em que a tecnologia ocupa cada vez mais espaço. O meu conselho, para que possamos coexistir de forma harmoniosa com a inteligência artificial, é simples: tornarmo-nos cada vez mais humanos. Cultivar a nossa interioridade. A nossa capacidade de sentir. A nossa responsabilidade subjetiva.

    E, nesse caminho, a psicoterapia continua a ter — e terá — um papel fundamental.

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