Oh. What. Fun. — Quando a “mãe” ocupa demasiado espaço

    O filme Oh. What. Fun., lançado recentemente na Amazon Prime e realizado por Michael Showalter, parece à primeira vista apenas mais uma comédia natalícia. Mas, por detrás da leveza do enredo, esconde-se um retrato profundo e subtil da dinâmica familiar contemporânea - sobretudo da mãe que faz tudo por todos, que segura a casa, os afetos e a tradição…e que raramente é verdadeiramente vista.

    O título inspira-se na canção “Jingle Bells” — “Oh, what fun it is to ride…” — e funciona como contraponto à realidade da protagonista: enquanto todos se divertem, ela trabalha. O filme propõe-nos refletir sobre a sobrecarga materna, a captura pelo arquétipo da Mãe e o impacto disso na autonomia dos filhos, e na realização da própria mulher.

    Claire: A Mãe Invisível

    Claire (Michelle Pfeiffer) planeia um Natal perfeito, especial, cheio de detalhes. A casa está impecável, a mesa posta, a comida pronta, as tradições alinhadas. No entanto, enquanto o marido, os filhos e os netos se divertem e convivem, ela está constantemente a trabalhar, a servir e a garantir que nada falte para que o Natal seja perfeito. E ninguém repara.

    Quando pede aos filhos que a inscrevam num programa de televisão que adoraria visitar — um pedido simples, simbólico, um desejo seu — eles ignoram. Não por maldade, mas porque simplesmente não a veem para além do papel que ela desempenha (uma mulher com desejos próprios).

    Até que, numa reviravolta quase poética, a família sai de casa e… esquece-se dela. É o ponto de saturação. Claire sente o limite, explode, transborda, sai e decide ir atrás do seu desejo: ir ao estúdio do programa.

    O arquétipo materno e a captura da mulher

    A pergunta que o filme me deixou foi: porque é que isto é tão comum? Porque é que tantas mulheres são reservadas ao papel de cuidadoras enquanto o resto da família desfruta?

    Algumas destas questões poderiam ser explicadas por modelos sociais e culturais, claro. Mas a minha proposta aqui é outra: a análise psicológica, que nos convida sempre à autorresponsabilização.

    Uma das respostas possíveis é a que Jung nos oferece: a captura pelo arquétipo materno.

    Quando uma mulher não está enraizada na sua identidade real — uma identidade autónoma, psicológica e emocionalmente, dona do seu desejo e em contacto com o seu mundo subjetivo — ela torna-se mais vulnerável às expectativas e demandas exteriores, bem como à captura de forças arquetípicas. No caso da mulher capturada pelo arquétipo materno, isso traduz-se em viver para os outros, ocupar o centro emocional da família, achar que é indispensável, controlar todos os detalhes e, aos poucos, perder-se de si mesma.

    Muitas mulheres, devido à sua história e à relação com a sua própria mãe — pelas suas faltas, ausências ou excessos — entram na maternidade a partir de um lugar de compensação: a esperança, muitas vezes inconsciente, de reparar a própria infância. Isso faz com que se percam nos meandros da maternidade, esquecendo-se de si mesmas enquanto mulheres.

    A maternidade, enquanto função psíquica, torna-se assim desproporcional, absorvendo energia que deveria estar distribuída por outras áreas da vida da mulher — criatividade, carreira, amizades, prazer, espiritualidade, relação amorosa. E, paradoxalmente, quanto mais ela dá, quanto mais espaço ocupa… menos espaço deixa para que os filhos cresçam.

    Os filhos e a dificuldade de autonomização

    O filme é brilhante na forma como retrata os diferentes modos como uma mãe que “ocupa demasiado lugar” afeta a identidade dos filhos.

    Channing (Felicity Jones), a filha mais velha, é quem mais pistas nos dá sobre o excesso de presença emocional desta mãe. Há várias cenas que revelam a necessidade desta filha ter mais espaço, ser vista e reconhecida como um ser autónomo e diferente da mãe — seja porque Claire não lhe pergunta a opinião sobre as atividades de Natal, seja pelo pouco reconhecimento que Channing sente em relação à sua carreira como escritora.

    Numa tentativa de se apropriar do seu próprio desejo, Channing expressa vontade de fazer algo diferente no Natal seguinte, de criar as suas próprias tradições com o marido e os filhos. Mas o seu desejo é recebido por Claire como um ataque, gerando de imediato culpa na filha. Esta culpa é típica em filhas de mães com personalidades dominantes: assumir o próprio desejo é vivido quase como uma traição ou abandono à mãe. Channing vive claramente o conflito entre autonomia e culpa.

    Taylor (Chloë Grace Moretz), a filha do meio, manifesta instabilidade relacional ao trocar de namoradas com frequência — algo que até se torna piada familiar — revelando dificuldade em aprofundar vínculos. Uma função materna demasiado absorvente pode impedir que as filhas construam intimidade segura noutros relacionamentos.

    Sammy (Dominic Sessa), o filho mais novo, encarna o clássico “menino da mamã”: o que não saiu do ninho, que permanece emocionalmente orbitando a mãe. Nele vemos a dificuldade de lançar-se na vida, uma identidade pouco diferenciada e uma dependência subtil mas evidente.

    Quando a Mãe Transborda

    O turning point do filme é o momento em que Claire é esquecida pela família. Quando todos saem para assistir a um espetáculo — atividade que a própria organizou — deixam-na em casa. Nesse instante, a sua zanga, tristeza e frustração transbordam. Ela explode, sai de casa e deixa a família, rumo à realização do seu próprio desejo: ir até ao estúdio do programa.

    Parte à aventura e, nessa jornada, encontra outras mulheres que também se sentem desvalorizadas. Juntas, riem, choram, apoiam-se, reconhecem-se.

    O feminino precisa desse espaço: sair da esfera da família, do papel de mãe, e encontrar-se com outras mulheres. Foi isso que permitiu que Claire se descobrisse noutras formas de ser e de estar. Ela reencontra pedaços de si que estavam esquecidos no tempo, na rotina e nas obrigações.

    Frequentemente escuto, em consultório, histórias de mulheres que se sentem perdidas de si mesmas e sufocadas pela maternidade, mas que, devido à culpa, não se permitem buscar um espaço que seja só delas. Contudo, como veremos mais à frente, quando a mãe sai de cena e cede lugar, a família cresce.

    Quando a mãe cede lugar, a família cresce

    O filme termina com uma nova possibilidade: um Natal novo, diferente, mais equilibrado.
    A mãe já não ocupa tudo. Os filhos começam a crescer. E a mulher — não apenas a mãe — começa finalmente a existir, uma mulher que desfruta da vida.

    Para muitas mulheres, dar espaço e ceder lugar é difícil; sentem-se inúteis ou desnecessárias. Contudo, essa é exatamente a função da mãe na vida de um filho ou de uma filha: tornar-se, com o tempo, desnecessária.

    Para isso, é importante que a mãe se lembre de que é mais do que uma mãe — é uma mulher.

    Quando a mãe se encontra consigo mesma e cede lugar, a família inteira se transforma.
    A autonomia dos filhos depende da autonomia da mãe. A liberdade deles só existe quando ela também se liberta. Quando ela deixa de ser “tudo”, permite que cada um se torne alguém.

    Claire bateu no fundo — e foi esse fundo que se tornou a passagem para um renascimento.

    O poder da mãe é real, mas precisa de limite. Oh, What Fun! oferece-nos um retrato comovente e profundamente humano do poder da mãe — aquele poder invisível, emocional, silencioso — que pode ser luz ou sombra, nutrição ou aprisionamento.

    Lembra-nos que a mãe é apenas um papel que a mulher representa, não quem ela é na sua totalidade. Quando o papel consome a vida, todos perdem. Mas quando a mulher-mãe floresce, todos crescem.

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