A mãe precisa de férias!
Esta semana, na minha própria análise, dei comigo a dizer à minha analista:
“Esta mãe precisa de férias!”
Esta frase veio de um lugar muito concreto — de quem precisa, literalmente, de dormir — mas também de um lugar mais profundo: o de alguém que precisa de espaço interno para se reencontrar consigo mesma.
No consultório, escuto muitas mulheres-mães que se sentem culpadas por necessitarem de tempo e espaço para elas. É comum ouvir histórias de mulheres que não conseguem ter tempo para si, para os seus hobbies e para aquilo que lhes é importante, para além do papel de mãe. Parece que, apesar de todas as conquistas, as mulheres continuam a ter dificuldade em assumir o que querem e o que precisam sem sentirem culpa.
A fusão necessária — e a separação fundamental
É verdade que, quando um bebé nasce, nasce num estado de total dependência. Precisa de uma mãe identificada com ele e empática em relação às suas necessidades para se sentir seguro e satisfeito. Só assim consegue sobreviver. Em psicologia, chamamos a este estado inicial da relação mãe-bebé estado de fusão. Neste momento, o bebé não se percebe como um ser separado e diferenciado da mãe.
Contudo, para que o bebé se desenvolva de forma saudável, é fundamental que, progressivamente, comece a acontecer a separação. Com o tempo, é importante que a mãe não responda a todas as necessidades do bebé de forma automática e “mágica”. É essencial que o bebé comece a comunicar as suas necessidades e a lidar com a frustração. Este processo é estruturante para o desenvolvimento de um aparelho psíquico saudável.
Curiosamente, muitas vezes este processo é mais difícil para as mães do que para os bebés. Parece que são as mães que têm mais dificuldade em separar-se dos seus filhos do que o contrário. Porquê?
As feridas que atravessam a maternidade
O desejo de ser mãe surge, muitas vezes, como uma necessidade de compensação e/ou reparação da própria história da mulher. São frequentemente as feridas — aquilo que a mãe recebeu ou não recebeu — que comandam a forma como ela vive a maternidade. Quando estas feridas não são reconhecidas, a mãe pode ter dificuldade em lidar com a separação, a frustração e os limites.
É o que acontece, por vezes, com mães que sentem grande dificuldade em colocar limites, porque inconscientemente vivem a maternidade como um espaço de reparação das suas próprias carências.
O problema da idealização da maternidade
Por causa deste movimento de compensação, muitas mulheres constroem um ideal de mãe — uma idealização — que depois não corresponde à realidade e que gera muita culpa. A idealização da maternidade é, a meu ver, uma questão coletiva.
Enquanto sociedade, idealizamos as mães como seres quase divinos: puras, abnegadas, que não sentem zanga nem culpa e, sobretudo, que não sentem desejo. Mães que dão tudo o que têm, que estão sempre disponíveis e permanentemente ao serviço.
Jung explicou que, nas sociedades judaico-cristãs, isto aconteceu porque a única imagem aceitável da mulher, segundo a moral cristã, era a de mãe e/ou de virgem. Isto criou um enorme problema de identificação e individuação, pois as mulheres não podiam ser mais do que mães ou donzelas — mulheres sem desejos, sem necessidades e sem complexidade psíquica.
Quando o arquétipo da mãe captura a mulher
Por causa desta idealização, e por falta de uma identidade própria, muitas mulheres-mães ficam capturadas pelo arquétipo da mãe. Quando isso acontece, toda a energia psíquica da mulher fica investida na maternidade. Outras partes importantes da sua psique e da sua vida ficam subestimadas, negligenciadas ou silenciadas.
A mulher deixa de existir como um ser inteiro e passa a existir apenas enquanto função.
A mãe interna também precisa de férias
Quando digo que a mãe precisa de férias, não falo apenas de forma literal. Falo, sobretudo, de forma simbólica. A mãe interna precisa de férias. Precisa de dar espaço para que outras partes da mulher possam respirar, crescer e manifestar-se.
Enquanto indivíduos e enquanto coletivo, precisamos de desidealizar o papel da mãe. A maternidade é, sem dúvida, um papel fundamental e merece ser valorizada. Mas não confundamos valorização com idealização.
Talvez um dos grandes problemas seja exatamente este: idealizamos o papel da mãe, mas não o valorizamos verdadeiramente. E talvez o nosso trabalho, interno e coletivo, tenha de começar por aí.