Sinto-me perdida… não sei quem sou. E agora?

    Este é um lugar que surge frequentemente nas sessões de terapia. Muitas pessoas procuram ajuda exatamente porque se sentem perdidas. A pergunta “quem sou eu?” ecoa com força quando tentamos descobrir qual é o nosso verdadeiro lugar no mundo.

    Existem muitas formas de tentar responder a este enigma. Há quem o faça a partir dos papéis sociais que representa (“sou mãe, filha, esposa, médica, astróloga, escritora…”). Outras pessoas definem-se através de uma dor ou de uma ausência (“sou uma mulher que perdeu um filho”, “sou alguém que sofre de depressão”), outras definem-se pelos planetas que regem o seu papa natal, há ainda os que se definem segundo os Doshas do Ayurveda.

    No entanto, quando procuramos uma resposta, devemos primeiro observar a partir de que lugar estamos a falar. No seu livro Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, Clarice Lispector descreve esta como a “pior pergunta de um ser humano”. Clarice adverte-nos porque sabe que este questionamento, frequentemente, nos deixa sem chão. Mas porque será tão difícil responder-lhe?

    Não tenho respostas definitivas, mas proponho-me a explorar as complexidades que tornam esta questão tão angustiante e que fazem com que tantas pessoas se sintam perdidas diante dela.

    1. Os papéis que representamos não são quem nós somos

    Quando respondemos à pergunta quem somos com base no exterior — através dos papéis que desempenhamos —, fechamos as nossas próprias possibilidades. Colocamo-nos numa caixa. Inevitavelmente, para quem procura profundidade, essa resposta será insuficiente. Nós não somos o papel; somos quem veste e despe esses mesmos papéis.

    É por isso que tantas pessoas que depositam toda a sua identidade no emprego, na maternidade ou no casamento, sentem um vazio imenso após alcançarem essas conquistas. Estavam a procurar-se fora, numa gaveta social que nunca conseguirá conter a sua totalidade.

    2. O início da nossa identidade: O espelho do Outro

    A nossa identidade forma-se a partir do desejo, da imaginação e do sonho do Outro. Por isso mesmo, é tão difícil discernir onde terminamos nós e onde começam os outros. Ao contrário do que a cultura individualista nos tenta vender, não vivemos isolados. Muito antes de nascermos, alguém desejou (ou temeu) a nossa chegada, imaginou as nossas feições, escolheu o nosso nome e determinou a nossa língua e cultura. Queiramos ou não, fomos forjados neste caldo cultural e familiar.

    Nascemos como um organismo vivo, puramente biológico, e é no processo de socialização que nos tornamos pessoas, sujeitos com subjetividade. Contudo, no início da vida, não possuímos essa subjetividade; é o nosso cuidador principal — na maioria dos vezes, a mãe — quem nos empresta a sua. É nessa relação primária, através do toque, do olhar e da fala, que a criança começa a erguer o seu mundo interno: o lugar onde passam a habitar os seus pensamentos, emoções e desejos. É dessa base que nasce a noção do “Eu”.

    3. A separação e a descoberta do Eu

    A descoberta de si mesma acontece através de um processo de separação emocional e psicológica. Este movimento ensaia os primeiros passos por volta dos dois anos, quando a criança começa a andar, a falar e a explorar a sua autonomia. Na adolescência, este processo ganha uma intensidade avassaladora.

    Como a criança é um ser absolutamente dependente para sobreviver, ela tende a moldar-se às expectativas do ambiente para garantir o afeto e a segurança. Já o adolescente, por não se encontrar tão desamparado, acelera essa busca, questionando o que recebeu e testando novos limites.

    O início da idade adulta surge, então, como uma grande triagem: o momento em que o jovem adulto separa o trigo do joio, escolhendo o que da herança familiar lhe serve, o que quer manter e o que precisa de abandonar por já não fazer sentido.

    4. Sustentar a solidão e o preço de Ser

    Este processo de triagem pode ser profundamente doloroso. Quebrar padrões familiares exige coragem. A forma como a família lida com a alteridade, com a diferença e com a autonomização dos filhos vai ditar a fluidez deste longo caminho. Quando o ambiente valida e acolhe o mundo subjetivo da criança, ela cresce segura para habitar a sua verdade. Quando isso não acontece, a criança desconecta-se de si mesma para sobreviver à rejeição ou à crítica.

    Aprender a sustentar a própria subjetividade talvez seja o único caminho para começarmos a responder a quem somos. E esse caminho implica, inevitavelmente, aprender a sustentar a solidão, a culpa e os preços a pagar por sermos quem somos. Requer maturidade. Quando o ambiente de infância foi marcado pela rigidez, dominância ou ausência de acolhimento emocional, o adulto não aprende a sustentar-se a si mesmo. Torna-se o adulto que se sente permanentemente perdido.

    Sustentar a individualidade exige a capacidade de desiludir os outros — especialmente aqueles que mais amamos — e de suportar o peso do nosso próprio sentir.

    Talvez responder à “pior pergunta de um ser humano” seja uma tarefa tão complexa porque exige separar o que é nosso do que é do outro, sabendo, de antemão, que essa separação nunca será absoluta, pois somos sempre feitos de quem nos antecedeu. Talvez seja tão angustiante porque, no fundo, não existem caixas grandes o suficiente para definir a imensidão que é ser Humano.

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