Uma Mulher sem Filtro - Quando a ansiedade é o grito da alma e a raiva se torna caminho de verdade
“Eu não sou uma mulher boazinha.”
É assim que Bia (Fabiula Nascimento), a protagonista de Uma Mulher Sem Filtro, encerra o filme, mas esta frase é, na verdade, um renascer. Um retorno a si mesma depois de anos a adaptar-se ao desejo dos outros.
O filme, uma comédia brasileira realizada por Artur Fontes, que está na plataforma Netflix, acompanha Bia: uma publicitária criativa, competente e ambiciosa, que sempre acreditou que o sucesso seria consequência natural do seu esforço. Mas a realidade não corresponde ao seu mérito. O chefe desvaloriza-a constantemente, o marido vive uma fantasia artística que nunca se concretiza, a melhor amiga não tem espaço para a escutar, e a vizinha transforma o descanso num luxo inalcançável.
No auge do cansaço emocional, surge ainda Paloma, uma influenciadora digital sem experiência que conquista o cargo que Bia sempre sonhou, símbolo perfeito de um mundo que insiste em não a ver.
Quando o corpo começa a falar
É neste cenário que o corpo de Bia começa a quebrar, começa a sentir tonturas, dores no peito, taquicardia, crises de choro no banho sem razão aparente, sintomas clássicos de um quadro clínico de perturbação de ansiedade.
Mas esta ansiedade não surge do nada, ela é na verdade uma mensageira de algo mais profundo, uma mensageira da alma, sinalizando que Bia vive desconectada da sua verdade, sempre adaptada ao desejo do outro, sempre a engolir a própria raiva. Bia representa a clássica “mulher boazinha”, “doce, educada, sempre adequada”.
Cansei de ser boazinha
A “boazinha” é uma estratégia, uma máscara que muitas mulheres usam para conquistarem o seu lugar no mundo, sentirem que pertencem, que são aceites e/ou amadas. São aquelas mulheres que fazem tudo por todos, mas que negam os próprios sentimentos, ficam à sombra dos outros e ocupam lugares secundários. São mulheres que, normalmente, estão desconectadas dos seus instintos, dos seus desejos e necessidades, sempre à mercê das expectativas do exterior.
A mulher que desenvolve a máscara da boazinha está, muitas vezes, ainda presa numa relação simbiótica com a mãe, sem autorização interna para existir, e por isso sente muita culpa sempre que tenta permitir-se fazer algo diferente. Vive uma paralisação dos seus instintos para não ferir a mãe, privilegiando sempre o desejo materno. Assim, a boazinha fica sem desejo próprio, ocupando-se de satisfazer as expectativas dessa mãe.
Por não ser uma identidade real — enraizada nos próprios instintos — mas sim uma máscara assumida para agradar os outros, estas mulheres muitas vezes não sentem realização plena, sofrem de síndrome do impostor, não conseguem desfrutar das suas conquistas e sentem-se perdidas.
A mulher que desenvolve esta máscara encontrou este caminho de sobrevivência devido a dois possíveis cenários. No primeiro, a mãe tem uma personalidade dominadora e impositiva, que não dá espaço para que a filha viva o seu mundo subjetivo, as suas emoções e os seus desejos. No segundo, a mãe é uma figura ausente (fisicamente ou emocionalmente), que não exerceu verdadeiramente a maternidade e não ajudou a filha a sustentar as suas emoções, sentimentos e desejos — a base da construção da identidade.
É comum a mulher boazinha colocar-se numa postura de sacrifício nas suas relações e ocupar lugares e papéis coadjuvantes, em vez de lugares de liderança. Tal como acontece com a personagem Bia, que sustenta o marido e a sua tentativa falhada de ser artista, e que é o pilar da empresa onde trabalha, sem por isso ser valorizada.
Para que a mulher consiga sair desse lugar, muitas vezes precisa de “bater no fundo”, tal como aconteceu com a personagem Bia, quando a ansiedade começa a surgir.
De Mulher Boazinha a Mulher Louca
Na busca por alívio, Bia procura uma solução pouco convencional: um tratamento conduzido pela misteriosa Deusa Xana. O resultado desse encontro místico é radical: Bia perde completamente o filtro. Diz tudo o que lhe vem à cabeça, a tudo e a todos, sem medo, sem contenção, sem repressão, sem máscara. Passa de um extremo ao outro. Depois de décadas de repressão interna, surge um transbordamento impulsivo e explosivo de sinceridade.
O contacto com a Deusa Xanã surge como um encontro com a deusa hindu Kali, a força criativa e, ao mesmo tempo, destruidora da vida. Bia reconecta-se com a mulher selvagem — aquela que está enraizada nos instintos, que não tem medo de sujar as mãos com a lama da vida. E, nesse encontro, depara-se com algo que sempre esteve ali: a sua própria zanga.
A boazinha é, muitas vezes, uma mulher que reprime a sua zanga. E, ao reprimi-la, perde também o contacto com os seus limites, vivendo alienada ao desejo do outro. Ao entrar em contacto com a zanga que sempre engoliu e ao permitir-se expressá-la, começa finalmente a colocar limites e deixa, automaticamente, de se adaptar às expectativas alheias. A sensação inicial é de liberdade. Contudo, rapidamente se apercebe de que colocar limites não é confortável.
Dizer não implica sustentar a nossa verdade e, com isso, ativar culpa, medo de rejeição, solidão, medo de ser vista como má, egoísta, difícil ou louca. Foi assim que começaram a ver Bia. Aprender a viver a partir da própria verdade implica, inevitavelmente, atravessar esse desconforto.
A verdadeira autenticidade
Integrar e elaborar a raiva não é dizer tudo o que pensamos no exato momento em que o sentimos, mas aprender a comunicar os nossos afetos e limites de forma consciente e assertiva — algo que a nossa sociedade ainda não está habituada a ver nas mulheres. Mulheres assertivas e donas da sua verdade são, muitas vezes, vistas como mulheres difíceis.
A verdade é que, ao perder o filtro, Bia acaba por magoar as pessoas que estão à sua volta e que ama. A sua jornada passa então por encontrar um equilíbrio: aprender a sentir, a conter o seu sentir, a elaborar o que vive internamente, para assim comunicar de forma mais consciente aquilo de que precisa.
Ao longo do caminho, a protagonista descobre algo essencial: relações saudáveis não são relações sem conflito. São relações em que existe verdade, limite, confronto — e depois reparação.
O amor maduro não é a ausência de discórdia, mas a capacidade de reparar depois do conflito. De voltar ao encontro depois de uma separação temporária.
Só quando Bia deixa de ser “boazinha” é que finalmente se torna verdadeira.
E é nessa verdade — com limites, com vulnerabilidade e com a coragem de enfrentar o conflito — que ela se reencontra consigo mesma e com os outros.